GREVES DE OPORTUNIDADE

Onda de greves

Onda de greves, divulgação

A palavra ‘greve’ vem do francês, de uma praça às margens do Rio Sena que servia de desembarque para cargas de navios lá no século 18. Era uma época de pré-revolução, de mudanças profundas no sistema econômico vigente até então. Os trabalhadores estavam, enfim, criando a consciência coletiva da importância que eles tinham no processo de produção e comercialização de bens. Foi assim que, naquele porto fluvial, começaram os protestos e piquetes que tanto serviram para aprimorar não só o capitalismo, mas também foram extremamente saudáveis para as democracias e o estabelecimento do conceito de direitos e deveres.

Desde então – e, principalmente, após a hecatombe das duas guerras mundiais -, classes e categorias de trabalhadores têm buscado de maneira efetiva e incisiva seus espaços para reivindicar e, mais ainda, tornar públicas suas reivindicações. Resumindo: não é nem um pouco de hoje o fenômeno de ondas de paralisações e manifestações durante ocasiões em que um determinado país ou região está sob os holofotes da mídia e da geopolítica mundiais.

E principalmente da mídia e do poder econômico, tão presente em megacompetições esportivas. Não existem os lemas ‘o importante é competir’ nem ‘pra frente Brasil’ na teia trilionária fiada por entidades megalomaníacas como a Fifa, essa esfinge suíça do capitalismo pós-século 20. É tudo ilusão. O cânone de ordem está mais para ‘faça a sua parte: torça e faça o dinheiro circular’.

Mas para onde? É isso que os ‘operários’ de hoje questionam em suas múltiplas greves. O que nem Dilma, nem nenhum governante, nem a massa dos ativistas de redes sociais enxerga é o precedente insidioso que a conjunção ano de eleição + Copa do Mundo oferece aos politicamente mal-intencionados.

Há quatro anos, a África do Sul quase entrou em colapso às vésperas do Mundial de futebol. Pararam os funcionários do transporte público, os do setor de eletricidade, foram para as ruas moradores dos slums suburbanos exigindo serviços básicos como água e esgoto. Resquícios de uma sociedade assolada pelo apartheid.

Ontem, rodoviários deixaram a maior cidade brasileira praticamente imóvel. A mesma cidade cuja principal avenida havia sido fechada uma semana antes por revoltados ex-funcionários de uma empresa de telecentro. No Recife de Eduardo Campos, saques promovidos na brecha da greve de PMs viraram munição para as TVs de nossos primos desenvolvidos, que reforçaram sem cerimônia a imagem de vira-lata do Brasil de Dilma. No Rio de Janeiro, palco da final da Copa, professores, profissionais de saúde, policiais civis, rodoviários e vigilantes recusam negociar até com o STF e conclamam pleitos esdrúxulos como “100% de aumento emergencial”.

Todo esse movimento aparentemente sem líderes – que pode ser chamado de o verdadeiro marketing de oportunidade da Copa do Mundo – ganha reverberação excessiva pelas mãos dos pseudorrevolucionários de teclado e, além do mais, contribui para tumultuar uma discussão que poderia ser muito mais proveitosa para o desenvolvimento e aprimoramento do sistema democrático brasileiro – não apenas o eleitoral, destaque-se.

Grupos que não se sentem representados pelos seus respectivos sindicatos, muitos deles microscópicos, tomam a vanguarda das ações. Remetem à Place de Grève dos anos 1700, “terreno plano composto de cascalho ou areia à margem do mar ou do rio”, onde se acumulavam inúmeros gravetos. Que, mais tarde desconstruídos na Itália do Duce Mussolini, formaram os feixes (fasci) do totalitarismo de fachada.

Fonte: Feijoada Política

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