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jan 22

SÉRIE CORRUPÇÃO NO BRASIL (V): CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA; PRIMEIRO CASO DE NEPOTISMO OU JEITINHO?

PRIMEIRO CASO DE NEPOTISMO OU JEITINHO?

Por: Leonardo Ladeira(*)

Nepotismo cruzado

Nepotismo cruzado

No ranking mundial da corrupção, o Brasil, uma das principais economias mundiais, foi
relacionado pela Transparência Internacional (TI), sediada em Berlim, entre os países
mais corruptos do mundo.
Do descobrimento aos dias de hoje a corrupção, o nepotismo, o ‘jeitinho’ e os golpes
se ampliaram em todas as dimensões e o Brasil refinou-se nessa arte.
Reza a lenda que a primeira prática de nepotismo no Brasil ocorreu quando Pero Vaz
de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral que descobriu o país, teria
pedido um emprego para seu genro ao rei de Portugal, Dom Manuel.
Caminha eternizou-se como o autor da célebre “Carta do Achamento do Brasil”,
datada de Porto Seguro, no dia 1º de Maio de 1500, ao soberano de Portugal,
considerada certidão de nascimento do Brasil.
Após a descoberta, enquanto o restante da armada seguiu para a Índia, a carta seguiu
viagem no navio de Gaspar de Lemos para Lisboa. Das mãos do Rei D.Manuel I, a carta
passou à secretaria de Estado como documento altamente secreto, pois se queria
evitar que a notícia do descobrimento do Brasil chegasse aos ouvidos dos espanhóis.
No documento em 27 folhas de papel, Caminha registrou suas impressões sobre
aspectos da terra que posteriormente viria a ser chamada de Brasil, como a visão do
Monte Pascoal e a feição dos nativos.
No final da carta, Caminha aproveita para apelar a D.Manuel que libertasse do cárcere
seu genro, casado com sua filha Isabel, que havia sido condenado ao degredo na ilha
de São Tomé por ter roubado uma igreja e por ter ferido o padre quatro anos antes.
Eis o trecho final no qual o cronista pede ‘uma ajudinha’ ao Rei:
“E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer
coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela
peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de
Osório, meu genro—o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa
Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, 1º dia de maio
de 1500.”
Então, na verdade, há que se corrigir um equívoco: Caminha não pediu emprego a um
“sobrinho” e sim favores a um genro, que se encontrava preso. Nepotismo ou jeitinho
“luso”?
Curiosidade: O perdão ao genro de Caminha foi atendido em 1501, quando o rei soube
que o cronista havia sido morto pelos árabes em ataque na feitoria de Calicute.

(*) Leonardo Ladeira é jornalista no Rio

Fonte: Carta Polis

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